Lígia Pizzatto

As serpentes e minha história...
Nasci em Campinas, SP e desde que consigo me lembrar fui fascinada por animais. Quando criança adorava guardar joaninhas e tatus-bolinha em caixinhas de fósforo e fazia labirintos para formigas e observava como elas faziam para alcançar o punhado de açúcar... Além de apaixonada por felinos, sempre tive uma tendência a gostar dos "bichos asquerosos". Era eu quem "salvava" minha mãe das lagartixas e pererecas...
Minha paixão pelas serpentes sempre foi uma grande charada para mim. Quando criança nunca tive contato com esses animais. Uma única vez vi uma cascavel num sítio, à noite, estendida ao lado da piscina. Meu pai, com ajuda do caseiro, mataram a perigosa criatura com uma enxada. A piscina ficou cheia de sangue. Guardaram o chocalho, como de costume. Acho que a lenda diz que traz sorte. Eu devia ter uns seis anos, se me lembro bem... Aquela cena me chocou. Fiquei dividida, com pena do animal, mas afinal, era um "bicho perigoso"...
Cresci sonhando ser veterinária.
Às vésperas do vestibular visitei a Unicamp durante uma visita aberta à comunidade. Lá, novamente me deparei com as serpentes. Fiquei observando uma jararaca por tanto tempo que me perdi do monitor... Fiquei hiptotizada com o simples efeito que o movimento respiratório provocava no padrão do desenho corporal...
Em 1997, a pedidos de minha mãe para ficar em nossa cidade, ingressei na faculdade de Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Campinas e me apaixonei! Desisti do curso de veterinária em São Paulo, logo na primeira semanas de aula, após as simples aulas de "Introdução à Ecologia" do primeiro semestre do curso de Biologia. Desisti dos animais doentes para "cuidar" deles na sua forma mais saudável, mais deslumbrante, na casa deles: a natureza!
Em
1998 comecei um estágio voluntário no laboratório de
herpetologia da Unicamp. Lá, com ajuda do biólogo Paulo Roberto
Manzani comecei a ter noções de taxonomia e biologia das serpentes.
Em janeiro de 1999, durante as férias, fiz estágio voluntário
no Parque Zoológico Quinzinho de Barros, em Sorocaba, onde conheci
o biólogo Sérgio Rangel Pinheiro, responsável pelo setor
de répteis e aves, naquela época. Conheci mais sobre as serpentes
e me apaixonei mais ainda. Na volta às aulas iniciei estágio
voluntário no Laboratório
de Herpetologia do Instituto Butantan, São Paulo, com o Dr. Otavio
Augusto V. Marques. Já comecei com um projeto de pesquisa, com
a falsa coral Oxyrhopus guibei, o qual se tornou minha iniciação
científica, concluída em final de 2000. Durante esse período,
também realizei trabalhos com a Dra. Selma
Maria de Almeida Santos, do Butantan. Além de ótimos tutores
ambos se tornaram meus bons amigos! Até hoje colaboro com os dois em
diversos trabalhos, especialmente na área de reprodução
de serpentes.
Em 2000 concluí minha graduação e em 2001 iniciei o mestrado, orientada pelo Otavio Marques, no curso de Ecologia da Unicamp. Estudei a reprodução de quatro populações de uma cobra d'água, Liophis miliaris. Paralelamente estudei as mussuranas, os lagartos conhecidos como cobras-de-vidro, corais... Durante este período também comecei a estudar a mitologia das serpentes, incentivada pelo Dr. Adilson Nascimento de Jesus, professor coordenador do grupo de estudos em dança, ao qual me juntei em 99. Foi na mitologia que eu descobri o verdadeiro significado da minha paixão pelas serpentes. Hoje, serpente, pesquisa, dança, e simbolismo fazem parte do que sou.
Concluí meu mestrado no início de 2003 e ingressei no doutorado para estudar meu grupo favorito: os Boideos. Ampliei meus horizontes para além da reprodução, incluindo na minha tese estudos de ecomorfologia. Ainda na Unicamp e ainda sob orientação do Otavio também pude contar com a ajuda do sistemata Hebert Ferrarezi. Mais um tutor, mais um amigo... Em 2005 tive a magnífica chance de ampliar ainda mais a minha tese indo à Austrália, estudar as pítons, sob a orientação do Dr. Richard Shine. Mais um sonho realizado, voltei ao Brasil após 4 meses, defendi minha tese e obtive uma bolsa de pós-doutorado para voltar a trabalhar com o Rick Shine. Durante meu pós-doutorado vou estudar área de vida em recém nascidos da píton Liasis fuscus.
O futuro? Quem sabe? Mas será com serpentes...
E-mail: ligia.oceanica@gmail.com
